Gabor Maté e Winnicott: O Que Você Está Tentando Aliviar?
Uma nova forma de compreender o sofrimento emocional
Vivemos em uma época marcada pela velocidade, pela hiperconexão e pela busca constante por bem-estar. Temos acesso instantâneo à informação, ao entretenimento e à comunicação, mas muitas pessoas continuam convivendo com sentimentos de ansiedade, vazio, solidão e desconexão interior.
Nesse cenário, o médico canadense Gabor Maté tornou-se uma das principais vozes contemporâneas no estudo do trauma, do sofrimento emocional e dos comportamentos compensatórios.
Uma de suas reflexões mais conhecidas é:
"A pergunta não é: por que o comportamento? A pergunta é: por que a dor?"
Essa mudança de perspectiva nos convida a olhar para além dos sintomas e investigar aquilo que eles podem estar tentando comunicar.
Curiosamente, décadas antes de Gabor Maté desenvolver suas pesquisas, o psicanalista Donald Winnicott já havia construído uma teoria capaz de lançar luz sobre essa mesma questão.
Embora tenham trabalhado em contextos diferentes, ambos parecem convergir para uma ideia fundamental: muitas das nossas dificuldades emocionais não surgem por fraqueza ou falta de vontade, mas como tentativas de adaptação diante de experiências dolorosas.
Quando buscamos alívio para aquilo que não conseguimos expressar
Ao longo da vida, cada pessoa desenvolve maneiras de lidar com o desconforto emocional.
Algumas recorrem ao trabalho excessivo. Outras passam horas nas redes sociais. Há quem encontre refúgio na comida, nas compras, nos relacionamentos ou em inúmeras formas de distração.
Esses comportamentos não são necessariamente problemáticos em si mesmos.
A questão surge quando passam a funcionar como a principal forma de lidar com sentimentos difíceis.
Segundo Gabor Maté, muitas vezes não estamos buscando prazer. Estamos buscando alívio.
Por trás de determinados padrões repetitivos pode existir uma tentativa de evitar sentimentos como:
Tristeza
Rejeição
Solidão
Medo
Vergonha
Falta de pertencimento
Por isso, em vez de perguntar:
"O que há de errado com essa pessoa?"
Maté sugere uma pergunta mais profunda:
"O que essa pessoa está tentando aliviar?"
Donald Winnicott e a importância dos primeiros vínculos
Donald Winnicott foi um dos mais influentes psicanalistas do século XX. Seu trabalho destacou a importância dos vínculos afetivos na construção da saúde emocional.
Segundo ele, todo ser humano necessita, especialmente nos primeiros anos de vida, de um ambiente suficientemente bom.
Isso não significa perfeição.
Significa ter ao redor pessoas capazes de oferecer cuidado, presença, acolhimento e segurança emocional de forma consistente.
Quando essas necessidades são atendidas de maneira razoável, a criança desenvolve confiança para crescer e expressar quem realmente é.
Mas quando ocorrem falhas importantes nesses vínculos, podem surgir sentimentos profundos de insegurança, desamparo ou desconexão.
Essas experiências nem sempre permanecem conscientes, mas podem continuar influenciando a vida emocional durante muitos anos.
O Falso Self: quando nos afastamos de quem somos
Um dos conceitos mais conhecidos de Winnicott é o de Falso Self.
Trata-se de uma adaptação psicológica criada para atender às expectativas do ambiente.
Em vez de expressar espontaneamente seus sentimentos e necessidades, a pessoa aprende a mostrar apenas aquilo que acredita ser aceitável.
Com o passar do tempo, isso pode gerar uma sensação difícil de explicar:
Sentimento de vazio
Falta de autenticidade
Desconexão consigo mesmo
Dificuldade de reconhecer os próprios desejos
Por fora, tudo pode parecer estar funcionando.
Por dentro, porém, existe a sensação de que algo importante ficou perdido pelo caminho.
A ponte entre Winnicott e Gabor Maté
É justamente nesse ponto que as ideias de Winnicott e Gabor Maté se encontram.
Winnicott investigou como as experiências precoces moldam o senso de identidade e segurança emocional.
Maté observa como essas feridas podem reaparecer mais tarde através de comportamentos que oferecem alívio temporário para dores antigas.
Em ambos os casos, o sintoma deixa de ser visto como um inimigo.
Ele passa a ser compreendido como uma tentativa de adaptação.
Uma tentativa de sobrevivência emocional.
Aquilo que parece autossabotagem pode ter sido, em algum momento da história daquela pessoa, uma forma de suportar experiências difíceis demais para serem elaboradas.
Essa compreensão não elimina a responsabilidade pessoal pelas escolhas, mas substitui o julgamento pela curiosidade e pela compaixão.
Um olhar necessário para os tempos atuais
As reflexões de Winnicott e Gabor Maté tornaram-se ainda mais relevantes no mundo contemporâneo.
Hoje, qualquer desconforto pode ser rapidamente abafado por estímulos constantes:
Séries e vídeos
Compras online
Consumo de conteúdos sem fim
Nunca foi tão fácil evitar o silêncio.
Nunca foi tão fácil permanecer ocupado.
Mas, ao mesmo tempo, nunca foi tão importante desenvolver a capacidade de escutar o que sentimos.
Muitas vezes, aquilo que buscamos externamente está relacionado a necessidades emocionais que ainda não foram plenamente reconhecidas.
Por isso, a pergunta proposta por Gabor Maté continua tão atual:
"O que estou tentando não sentir?"
Ou talvez:
"Que parte de mim está pedindo atenção?"
O caminho da cura começa pela compreensão
Tanto Winnicott quanto Gabor Maté apontam para uma mesma direção.
A transformação emocional não acontece através da culpa, da repressão ou da autocrítica excessiva.
Ela começa quando encontramos espaços seguros para compreender nossa história, reconhecer nossas dores e acolher aquilo que durante muito tempo precisou permanecer escondido.
Quando uma pessoa passa a compreender o significado de seus comportamentos compensatórios, eles frequentemente perdem parte da função que exerciam.
A necessidade de buscar alívio externo diminui à medida que cresce a capacidade de encontrar sustentação interna.
Considerações finais
Uma das contribuições mais importantes de Donald Winnicott e Gabor Maté é nos lembrar que por trás de muitos sintomas existe uma história humana que merece ser escutada.
Muitas vezes, os comportamentos que julgamos excessivos não são sinais de fraqueza ou falta de caráter.
São tentativas de encontrar conforto diante de dores que ainda não puderam ser plenamente acolhidas.
Ao substituirmos o julgamento pela compreensão, abrimos espaço para uma relação mais humana com nós mesmos e com os outros.
Talvez a pergunta mais transformadora não seja:
"O que há de errado comigo?"
Mas sim:
"O que em mim está precisando de cuidado, escuta e acolhimento?"
É nessa pergunta que se encontram, de maneira surpreendentemente atual, os ensinamentos de Donald Winnicott e Gabor Maté.
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