Do Mal-Estar ao Excesso na Vida Contemporânea

Freud, Lacan e a contemporaneidade

Vivemos em uma época marcada pela velocidade, produtividade e estímulos constantes. Café, bebidas energéticas, redes sociais, exercícios, trabalho e tecnologias podem ajudar a enfrentar a rotina, mas também podem se transformar em hábitos repetitivos quando sentimos que não conseguimos mais parar.

Em O Mal-Estar na Civilização, Sigmund Freud mostrou que a busca pela satisfação convive permanentemente com limites, frustrações e sofrimentos. O ser humano procura prazer e tenta evitar o desprazer, mas nunca consegue eliminar completamente o mal-estar.

Na contemporaneidade, essa questão ganha uma nova aparência: muitas vezes, em vez de perguntarmos "como posso descansar?", procuramos saber "o que posso fazer para continuar?"

É nesse ponto que podemos aproximar a reflexão de Jacques Lacan. O conceito de gozo (jouissance) não significa simplesmente prazer. Está relacionado a uma forma mais complexa de satisfação, que pode envolver desejo, repetição e excesso. Portanto, não seria correto afirmar que consumir energéticos, utilizar redes sociais ou trabalhar excessivamente seja, por si só, uma manifestação do gozo lacaniano.

A pergunta mais interessante é outra:

Por que repetimos determinados comportamentos mesmo quando percebemos que eles podem estar ultrapassando nossos próprios limites?

Um energético pode ser apenas uma bebida. O café pode ser apenas café. O celular pode ser apenas uma ferramenta. O exercício pode ser uma prática saudável. O trabalho pode proporcionar realização.

O problema não está necessariamente no objeto, mas na relação que estabelecemos com ele.

Existe uma diferença entre:

"Eu escolho utilizar isso."

e

"Sinto que não consigo funcionar sem isso."

Essa diferença nos permite observar a contemporaneidade sem transformar hábitos em diagnósticos ou fazer condenações sociais.

Freud → mal-estar e busca de satisfação

Lacan → desejo, repetição e gozo

Contemporaneidade → desempenho, estímulo e excesso

Assim, energéticos, café, redes sociais, trabalho, exercícios e outras práticas podem ser estudados como diferentes objetos dentro de circuitos contemporâneos de demanda, satisfação e repetição, sem afirmar que sejam equivalentes ou necessariamente problemáticos.

Talvez a questão mais atual não seja consumir menos, mas recuperar a capacidade de perceber quando estamos utilizando algo para viver melhor e quando estamos utilizando algo apenas para conseguir continuar.

Entre o prazer, o desejo e o excesso existe um limite. Reconhecê-lo pode ser uma forma de cuidado.

Perguntas Frequentes

1. Tomar energético, café ou usar redes sociais significa estar em busca de gozo?

Não necessariamente. Esses comportamentos fazem parte da vida cotidiana. A questão psicanalítica surge quando perguntamos se existe uma repetição que ultrapassa a necessidade ou o prazer imediato. Em Lacan, gozo não significa simplesmente prazer, mas uma forma mais complexa de satisfação que pode envolver repetição e excesso.

2. Freud e Lacan estão dizendo a mesma coisa sobre o excesso?

Não exatamente. Freud ajuda a compreender o mal-estar e a busca de satisfação diante dos limites da vida. Lacan amplia essa discussão ao investigar desejo, repetição e gozo. A contemporaneidade acrescenta uma nova dimensão: a pressão para produzir, consumir e continuar.

3. Então o problema está no consumo?

Não necessariamente. Café, energético, exercício, trabalho ou redes sociais não são problemas por si mesmos. O ponto está na relação que estabelecemos com eles. Uma pergunta simples pode ajudar: “Eu escolho utilizar isso ou sinto que não consigo mais funcionar sem isso?” Essa diferença pode revelar quando um recurso começa a ultrapassar nossos próprios limites.



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